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Por dentro do cérebro durante a dor de cabeça

Publicado 14/08/2020
Enxaqueca crônica

Papo Cabeça Você já parou para pensar sobre o que acontece em seu cérebro durante uma crise de dor de cabeça? De onde vem a dor? Como os analgésicos agem no cérebro?

Existem muitos mitos envolvendo esse órgão tão misterioso, tão importante para o funcionamento do corpo, e entendê-lo ajuda a lidar melhor com as crises e tratamentos de enxaqueca.

Para nos ajudar a desvendar o cérebro, conversamos com a neurologista Dra. Maria Eduarda Nobre (CRM-RJ 58946-8), da Sociedade Brasileira de Cefaleia, para um episódio especial do nosso podcast, o Papo Cabeça. A seguir você confere uma prévia deste bate-papo.

O cérebro sente dor?

Dra. Maria Eduarda: Na realidade o cérebro não dói, ele emite a dor¹. Então, a origem da enxaqueca é no cérebro, mas é um longo caminho, como se fosse uma cascata de eventos onde o primeiro deles aconteceria no cérebro e o último seria a dor. Então, na hora da crise dolorosa, não é o cérebro que dói, são outras estruturas em volta dele.

Quando falamos em dores de cabeça, a gente ouve falar muito sobre processos inflamatórios dentro da cabeça. Como que isso ocorre?

ME: No momento em que há o disparo da dor, existem vários locais que são ativados dentro do cérebro, como se fosse um impulso nervoso, e ocorre a dilatação dos vasos sanguíneos, que inflamam. A dor é gerada pela inflamação e a dilatação nos vasos externos da cabeça³. 

E isso acontece em qualquer dor de cabeça?  

ME: Não, isso ocorre na enxaqueca. Existem vários tipos de dores de cabeça e a enxaqueca é uma delas. Nela, o que dói é o vaso dilatado³.  Na sinusite, por exemplo, o que está doendo é o seio da face que está com secreção. Já a cefaleia tensional, geralmente está mais associada à contração muscular, não tem uma inflamação². 

Esse processo inflamatório presente na enxaqueca crônica pode gerar algum dano estrutural em longo prazo? 

ME: A enxaqueca crônica se configura pela frequência, sendo que a pessoa que tem mais de 15 dias de dores por mês já é considerada enxaquecosa crônica². Neste caso, há um processo inflamatório que está sendo ativado constantemente, mas não oferece danos estruturais. Onde pode existir algum risco de comprometimento mais sério é no caso da enxaqueca com aura, que apresenta um risco maior de ocorrer um acidente vascular cerebral4

Como os analgésicos atuam no cérebro ao tratar a dor de cabeça? 

 ME: Os analgésicos comuns em geral amenizam a dor, mas eles não atingem o nosso objetivo principal, que no caso da crise de enxaqueca é diminuir a inflamação e a dilatação dos vasos. Existem remédios específicos que vão atuar diretamente na vasodilatação, contraindo esses vasos, e os anti-inflamatórios que os desinflamam. Mas esses medicamentos não podem ser tomados com frequência, por isso a necessidade de um tratamento preventivo5

Qual é a explicação médica para quando o analgésico não faz mais efeito e acaba gerando mais dor? 

ME: O cérebro produz endorfina, que é o nosso analgésico natural. Quando a pessoa ingere muito analgésico, tende a ocorrer esse tipo de “dependência” em que o cérebro fica condicionado ao remédio. Isso ocorre porque quando acaba o efeito analgésico externo, o cérebro quer mais, mas não consegue produzir o seu analgésico de forma natural, e a dor vem como forma de chamar mais analgésico².  Quanto mais analgésico a pessoa toma, mais analgésico ela vai tomar, e mais frequente a dor vai ficar. Esse é um fator de cronificação da enxaqueca6

Como atuam as medicações preventivas no tratamento da enxaqueca crônica? 

ME: Temos, por exemplo, os antidepressivos e anticonvulsivantes, que são classes de medicamentos que agem no disparo da dor no cérebro, modulando o neurônio e o impulso da transmissão dolorosa. Também existem tratamentos que atuam nas moléculas que estão gerando a dor lá no vaso. Esses medicamentos podem agir localmente ou de forma sistêmica. No caso da toxina botulínica A, ela atua diretamente nas moléculas que estão gerando a dor lá no vaso, a partir da injeção do medicamento em pontos específicos da região da cabeça e pescoço5. Alguns pacientes podem precisar de mais de um tipo de medicação.

A resposta ao tratamento é diferente para cada paciente?

ME: Sim, isso é extremamente individual, e envolve também a tolerância à medicação, os efeitos colaterais e a dose adequada a cada caso. Não existe uma receita de bolo, nós (neurologistas) sentimos as necessidades do paciente e ajustamos o tratamento. O paciente não pode desistir logo no início do tratamento, pois existem diversos caminhos que a gente pode propor. 

Para ouvir a conversa completa com a Dra. Maria Eduarda Nobre, acessa aqui o podcast do Papo Cabeça. A Dra. ainda falou de efeitos colaterais do tratamento e como a saúde mental interferir. 


Referências 

¹BASBAUM Allan. If the brain can't feel pain, why do I get headaches?, San Francisco, 2014. Disponível em: https://www.brainfacts.org/ask-an-expert/if-the-brain-cant-feel-pain-why-do-i-get-headaches. Acessado em 13 de agosto de 2020. 

²Sociedade Brasileira de Cefaleia. Classificação Internacional das Cefaleias 3ª edição, 2019. Disponível em: https://ichd-3.org/wp-content/uploads/2019/06/ICHD-3-Brazilian-Portuguese-translation-25062019.pdf. Acessado em 13 de agosto de 2020. 

³ Migraine.com. What is migraine?, 2018. Disponível em: https://migraine.com/what-is-migraine/. Acessado em 13 de agosto de 2020.

4 ANN I. Scher and LENORE J. Launer. Migraine with aura increases the risk of stroke, 2018. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4540227/. Acessado em 13 de agosto de 2020.

5 Kowacs Fernando, 2019. Consensus of the Brazilian Headache Society on the Treatment of Chronic Migraine Arq Neuropsiquiatr Disponível em:  http://sbcefaleia4.tempsite.ws/sbcefaleia/index.php?option=com_mtree&task=att_download&link_id=316&cf_id=24. Acessado em 13 de agosto de 2020.

6 America Migraine Foundation, 2016 Medication Overuse Headache. Disponível em:  https://americanmigrainefoundation.org/resource-library/medication-overuse/. Acessado em 13 de agosto de 2020.



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